Quando o mundo dela estava caindo
Ontem, minha filha teve uma crise porque queria algo que eu não podia oferecer.
Eu poderia ter entrado na discussão, me irritado ou simplesmente cedido para acabar com aquele momento difícil. Mas escolhi permanecer presente.
Quando ela se acalmou, veio até mim, me abraçou, pediu desculpas e seguimos o nosso dia. E foi nesse momento que uma reflexão me atravessou:
Muitas vezes, a capacidade de uma criança se reorganizar emocionalmente depende da nossa capacidade de não nos desorganizarmos junto com ela.
Talvez esse seja um dos maiores desafios da maternidade.
Porque quem vê de fora imagina que estamos lidando apenas com a birra de uma criança. Mas a verdade é que, muitas vezes, aquela mãe que está diante da crise já passou o dia inteiro resolvendo problemas, lidando com preocupações financeiras, desafios no relacionamento, responsabilidades do trabalho, da casa e da própria vida.
E então surge uma criança de três anos chorando, gritando e exigindo algo que não pode ter.
Como não se desorganizar junto?
Como permanecer disponível quando, muitas vezes, a vontade é sentar, chorar ou gritar exatamente como aquela criança?
A maternidade me ensina diariamente que nem sempre o nosso papel é resolver tudo. Muitas vezes, é apenas permanecer.
Permanecer presente.
Permanecer disponível.
Permanecer segura quando o outro não consegue encontrar segurança dentro de si.
Naquele momento, o choro trazia irritação. Os gritos despertavam em mim a vontade de fugir da situação. Mas eu escolhi não fugir.
Escolhi esperar.
Escolhi respeitar o tempo daquela pequena tempestade.
Fiquei em silêncio enquanto a chama da raiva consumia aquele pequeno coração que ainda está aprendendo a lidar com a frustração.
E, aos poucos, a intensidade foi diminuindo.
Quando a tempestade passou, ela veio até mim.
Abri os braços.
Ela subiu no meu colo, me abraçou, pediu desculpas e, naquele instante, tudo voltou ao seu lugar.
Fomos brincar.
Mais tarde, já tranquila, seguimos nossa rotina. Contei uma história, a coloquei para dormir e ela adormeceu em paz.
Quando saí do quarto, olhei para ela, respirei fundo e pensei:
"Consegui. Mais um dia."
Não foi perfeito. Não foi fácil. Mas foi suficiente.
E talvez seja isso que eu gostaria que mais mães lembrassem.
Não precisamos ser perfeitas.
Não precisamos ter todas as respostas.
Precisamos apenas estar disponíveis.
Precisamos mostrar aos nossos filhos que, mesmo diante das crises, das lágrimas, das birras e das dificuldades, continuaremos ali.
Porque, naquele momento, o mundo dela estava desabando.
Talvez os problemas dela não sejam iguais aos meus. Talvez pareçam pequenos aos olhos de um adulto. Mas, para uma criança de três anos, aquela dor era real.
E eu pude ajudá-la a atravessar aquele momento sem que ela precisasse enfrentá-lo sozinha.
Talvez seja isso o cuidado.
Talvez seja isso a proteção.
Talvez seja isso o amor.
E, naquele dia, eu acredito que fiz a melhor escolha que poderia fazer.